domingo, 25 de janeiro de 2015

Almas Aprisionadas - Capítulo 2

O gabinete não contrastava com todo o restante. Era simples e operacional. Uma cristaleira adaptada como guarda-remédios, uma estante com umas três dúzias de livros, um grosso tapete em tom carmim e uma grande mesa de mogno, curiosamente dotada de tampo de ébano.

_ Este é meu refúgio... 

Humberto deixou-se cair na cadeira de alto espaldar convidando, sob gestos rápidos, o novo médico a uma das cadeiras diante da mesa. Guilherme parecia absorto numa irresistível sensação de reencontro, conquanto jamais tenha sequer passado pela região.

_ Dr. Humberto, fiquei muito feliz com seu convite... Desculpe o meu estado quase catatônico, é o cansaço da viagem, eu acho...

Ajeitando os papéis na mesa, o Diretor do Hospício da Serra não pareceu dar muita atenção. Seguiu no exame da ficha esmiuçando os dados já lidos e relidos diversas vezes.

_ Vejo que você foi aluno do Martins. Ele me ligou e disse que deveria ficar com você. Saiba que isso não é nada comum.

Levantou os olhos até o jovem psiquiatra com o cenho fechado, olhos apertados, quase ríspido. Ainda mais taciturno, Guilherme sentiu-se desconfortável pela primeira vez.

_ O que não é comum?

Um sorriso nasceu no semblante idoso.

_ Alguém me recomendar um novo médico... Este local é solenemente ignorado por quase todos os meus colegas. Você deve ter impressionado o Martins, seja positivamente, seja negativamente, vamos ver...

Martins fora professor de Guilherme durante o curso e orientador no período de residência médica. Travaram longos debates, nem sempre amistosos, sobre a origem das psicoses. O professor se irritava quase sempre com o que considerava uma rebelde teimosia de seu aluno.

_ Nunca imaginei que o Dr. Martins me recomendasse a alguém...

Humberto amparava o queixo com a destra, olhando o jovem nos olhos.

_ Pois é... Ele não costuma fazer isso mesmo. Tanto mais comigo e para este hospital. Você já deve ter conhecido nosso lindo apelido, "Hospício da Serra", e, como vê, bem sabe que as instalações não demonstram haver um centro de modernidade por aqui.

O velho médico fitou Guilherme por sobre as lentes.

_ Você acredita que há uma alma em cada ser humano?

O que Guilherme já quase adivinhava se tornou evidente. O ex-professor encaminhou-o aos cuidados do antigo colega por causa de uma recorrente divergência. Apesar de Guilherme não ser religioso, tampouco seguir ideário algum de cunho místico, tinha em si uma convicção que desde sempre o encontrava sob foros de verdade. Cria que a vida é um fenômeno imaterial que continua após a morte do corpo físico.

_ Bem... Mais ou menos. Não sou religioso.

Humberto intercedeu, com seu velho jeito de ser, diretamente no ponto que julgava relevante.

_ Você é ateu?

Uma pergunta. Apenas uma pergunta. Capaz de deixar, em situações como aquela, o interlocutor bastante desconfortável. Seria um teste? Estaria ele sendo sabatinado em temas extracurriculares?

_ Não...

Humberto recostou-se na cadeira e arqueou as sobrancelhas.

_ Claro que não. Se fosse, Martins não teria enviado você a mim. Mas eu precisava ouvir de você.  Nós temos alguns casos bem interessantes por aqui. 

Guilherme continuava com o olhar interrogativo, mas o ancião preferiu deixá-lo ir.

_ Não se preocupe com isso agora. Vou pedir ao Dornelles que o acompanhe aos seus aposentos. Descanse. amanhã você já inicia o contato com nossos pacientes.

Enquanto falava Humberto se pôs de pé e, tomando Guilherme pelo braço, o conduziu até a porta. Após um grito, surgiu Dornelles. Baixo e careca, sorridente, já chegou indicando o caminho do quarto.

Para surpresa de Guilherme, seus aposentos eram muito próximos. Virando à direita ao final do corredor, a segunda porta, na qual se lia "Vice-Diretor Geral". Não teve tempo de perguntar e Dornelles já foi abrindo a porta. A mala estava sobre a cama, aberta e quase vazia.

_ Suas roupas foram colocadas naquele armário. Os livros estão na prateleira. Ali é o banheiro. Ah! Tem uma pequena sacada ali.

Rapidamente o serviçal, sempre sorrindo, saiu e deixou Guilherme ali, em pé no meio do quarto, ainda tentando assimilar a última hora de sua vida que, até então, julgava bastante tediosa.

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