O crepúsculo costumava ser especialmente belo quando o astro iniciava o mergulho por trás da Serra da Mantiqueira. Céu azul com nuvens muito alvas, as tardes findavam sob matizes rubros e uma melancolia agradável, arrefecendo o calor que até pouco castigava os rurícolas que restavam naquele vale tomado por indústrias. A mata atlântica vicejava ocultando a devastação que a urbanização descontrolada semeou por todo um século. O Rio Paraíba serpenteava ignorando os esbulhos sofridos em seu leito à conta da exploração de suas areias. Águas fortes, tornaram-se especialmente letais para banhistas desavisados, turbulentas sobre imensos buracos abertos sob a correnteza.
O médico estancou diante dos portões observando longamente os muros cobertos de hera. O sol já se punha quase oculto, fazendo em chumbo escuro os tons predominantes. Não fosse o taxista e Guilherme permaneceria absorto em seu transe. Desconcertado, pagou pela corrida sob o olhar investigativo do chofer que, algo decepcionado, afastou-se frustrado por não ter conseguido conversar durante o percurso, como sempre fazia.
Um interfone parecia moribundo sob ramos de hera seca. Logo uma voz rangente perguntava, sob evidente irritação, o que desejavam ali já no final do dia. A apresentação sintética do lacônico facultativo não pareceu instigar interesse. Mas um estalido metálico anunciou a abertura do grande portal. O homem surgiu por trás da fresta aberta e com movimentos do indicador direito chamou o visitante. Guilherme entendeu que não havia como ser atendido muito rapidamente, apreciando o longo caminho dentre árvores até uma grande edificação lá adiante. O caminho era descuidado, com mato crescido e o que restou de seixos sobre o leito esburacado. O homem que conduzia Guilherme tinha certamente mais de um metro e noventa, muito forte, envergando um uniforme de segurança meticulosamente bem passado e engomado. O som dos passos tomava os ouvidos como se nada mais houvesse no mundo. Guilherme desejaria que o grisalho e forte segurança o ajudasse com sua mala, única, porém já bem pesada naquele final de dia. Um jardim seco e com arbustos cadavéricos se punha entre eles e uma escada que levava à porta do Sanatório Nossa Senhora, conhecido na região como Hospício da Serra. Para ambos os lados o prédio se estendia por muitos metros, acumulando três andares com muitas janelas, todas com grades. Muita umidade contrastava com o calor das tardes, desnudando manchas horríveis de bolor nas bordas e nas reentrâncias dos imensos blocos da construção.
O imenso segurança voltou-se e tomou a mala das mãos de Guilherme, sem fitá-lo nem por um instante. Deram a volta no ressequido jardim e subiram os degraus de madeira rangente. Guilherme entendeu que o auxílio ali era mesmo indispensável pois cada degrau mais parecia a arquibancada de um estádio de futebol. A voz firme do segurança, sem nenhuma preparação, noticiou que o Sanatório foi feito em grande parte com materiais doados, sendo que um trecho de uma bancada tinha sido aproveitada para aquela escada improvisada. Já diante da porta, para surpresa do jovem médico, o segurança devolveu-lhe a mala com a mesma desfaçatez com que a tomara.
Moveu nervosamente uma pequena alavanca enquanto o som surdo de uma sineta tagarelava no interior.
_ Seja bem-vindo Dr. Guilherme!
Mal pronunciada a rápida e inesperada frase, o alto homem se afastou aos pulos, descendo em dois lances os sete imensos degraus. Ainda olhava o homem fardado indo adiante quando a porta abriu-se. Não demorou a reconhecer o Dr. Humberto sob a sanguínea aparência que, do alto das muitas décadas de vida, empertigava um guarda-pó branco com largo sorriso.
_ Guilherme! Temi que não conseguisse chegar hoje. Venha! Entre, entre.
Pela primeira vez após várias horas, o jovem sorriu. Ingressou naquele prédio de aspecto feio e lúgubre e, para sua grande surpresa, descobriu um aconchegante átrio iluminado por um enorme candelabro. Piso de madeira e paredes revestidas com lambris, parecia um castelo simples mas confortável, com móveis rústicos também de madeira, muita madeira, por todos os lados. Deu-se conta de que não prestava atenção a uma longa dissertação que o antigo psiquiatra fazia sobre o local, como se fosse um guia turístico. Fitava um balcão atrás do qual uma enfermeira muito idosa ignorava solenemente a presença de ambos, preocupada em ordenar fichas e uma grande papelada em longas gavetas que pendiam abertas.
De repente viu-se observado pelo velho alienista, por sobre as lentes dos óculos.
_ Enfim... Vamos até o meu gabinete. Depois vou mostrar os seus aposentos.
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