domingo, 8 de fevereiro de 2015

Almas Aprisionadas - Capítulo 3

Guilherme levantou-se muito cedo. Sem alarde, saiu dos aposentos e percorreu o caminho pelo qual entrara. A velha enfermeira continuava lá, organizando suas fichas. Preferiu não incomodá-la. Desceu a escada e, tomando à direita no jardim ressecado, uma viela o encaminhou a um grande gramado, com muitas árvores. Um enorme grupo de internos perambulava em todas as direções, todos vestidos com roupas de algodão branco, nem sempre limpas, indo e vindo com expressões vazias, olhos fixos no chão, alguns com tremores, outros caminhando sem mexer os braços, com as mãos unidas em frenético movimento dos dedos.

Guilherme se infiltrou em meio a eles, com muita cautela, observando se sua presença seria notada. Ninguém parecia vê-lo. Continuou até o centro do gramado, onde uma pequena fonte, seca, exibia galhos mortos de plantas há muito descuidadas. Ainda havia uma verde água com girinos e algumas plantas. Tocou a borda do anteparo e inseriu o indicador direito na água. Um imenso calafrio percorreu sua coluna. O som das pessoas caminhando, com seus murmúrios indefinidos sumiu. Olhou em volta e percebeu que todos, sem exceção, pararam de andar e o fitavam assustados.

_ Ai caramba...

Ficou ali olhando em torno por alguns eternos momentos. A voz firme de um enorme enfermeiro fez com que todos retomassem seu passo com as expressões perdidas de minutos antes.

_ Caminhando!!!

O enfermeiro veio em sua direção com o semblante carregado de dúvida.

_ Quem é você afinal?

Guilherme se deu conta de que não fora ainda apresentado a ninguém. Talvez tivesse se precipitado em sair pelo hospital sem o Diretor.

_ Hã... Sou o Dr. Guilherme... Cheguei ontem. Falei com o Dr. Humberto. Acho que não deveria vir aqui antes de ser apresentado. Desculpe.

O enfermeiro o fitou longamente com a sobrancelha arqueada. Desceu os olhos pelas roupas de Guilherme em franca decepção por ver um médico de jeans, camiseta preta e um surrado tênis. Terminou com um arremedo de sorrido estendendo-lhe a mão.

_ Meu nome é Roberto. Sou enfermeiro responsável pela segurança.

Enfermeiro responsável pela segurança? Guilherme denunciou sua surpresa com o olhar.

_ Sim, meu caro Doutor... Aqui não temos seguranças e eu dou conta do recado...

Guilherme logo percebeu a razão. Era um homem de quase dois metros de altura e parecia um lutador de MMA pronto para a luta nos pesos pesados. Muito forte. Os braços quase estouravam as mangas do guarda-pó branco como neve.

_ Não venha aqui sozinho! E, se vier, em hipótese alguma chegue novamente perto dessa fonte.

Antes que Guilherme pudesse dar vazão às enormes dúvidas que aquelas duas frases trouxeram, Roberto tomou-o pelo braço e o arrastou de lá até uma porta na lateral do prédio principal. Parecia que aquela era a forma padrão de conduzir alguém dentro do hospital.

_ Vá por essa porta e tome seu café. Infelizmente vai ter que ser junto com outros internos, mas não se preocupe. São mais calmos e, qualquer coisa, é só gritar.

Girou nos calcanhares e saiu dando ordens firmes aos pacientes que o obedeciam sem olhar, sempre lentamente, mas sem esboçar nenhuma resistência.

A porta se abriu e Guilherme viu uma enorme cozinha com várias mesas longas de madeira com bancos laterais. Miríades de pacientes estavam sentados, comendo, todos quietos com os olhos fixos nas canecas e no pão em sua frente.

_ Meu Deus! Quantos pacientes há neste lugar?

Nem percebeu uma senhora de meia idade, muito gorda e com uma vassoura na destra, que lhe respondeu muito sorridente.

_ Xiiiii... Acho que nem o Dr. Humberto sabe... Eles chegam aqui ninguém nem sabe de onde... Vão ficando...

O médico, a cada momento, mais taciturno ficava. Como assim, chegam ninguém sabe de onde? Arriscou uma pergunta.

_ Mas... Chegam aqui como? Esse hospital é muito afastado das cidades e a estrada é péssima. Quem os traz?

Mariana, a gorda faxineira, voltou a varrer e deu de ombros.

_ Sei lá... Só sei que a cada três ou quatro meses chega um novo. Ah! De vez em quando um some também...

Antes de novas perguntas, a serviçal retomou uma canção sertaneja e se afastou sem olhar mais para o curioso psiquiatra.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Almas Aprisionadas - Capítulo 2

O gabinete não contrastava com todo o restante. Era simples e operacional. Uma cristaleira adaptada como guarda-remédios, uma estante com umas três dúzias de livros, um grosso tapete em tom carmim e uma grande mesa de mogno, curiosamente dotada de tampo de ébano.

_ Este é meu refúgio... 

Humberto deixou-se cair na cadeira de alto espaldar convidando, sob gestos rápidos, o novo médico a uma das cadeiras diante da mesa. Guilherme parecia absorto numa irresistível sensação de reencontro, conquanto jamais tenha sequer passado pela região.

_ Dr. Humberto, fiquei muito feliz com seu convite... Desculpe o meu estado quase catatônico, é o cansaço da viagem, eu acho...

Ajeitando os papéis na mesa, o Diretor do Hospício da Serra não pareceu dar muita atenção. Seguiu no exame da ficha esmiuçando os dados já lidos e relidos diversas vezes.

_ Vejo que você foi aluno do Martins. Ele me ligou e disse que deveria ficar com você. Saiba que isso não é nada comum.

Levantou os olhos até o jovem psiquiatra com o cenho fechado, olhos apertados, quase ríspido. Ainda mais taciturno, Guilherme sentiu-se desconfortável pela primeira vez.

_ O que não é comum?

Um sorriso nasceu no semblante idoso.

_ Alguém me recomendar um novo médico... Este local é solenemente ignorado por quase todos os meus colegas. Você deve ter impressionado o Martins, seja positivamente, seja negativamente, vamos ver...

Martins fora professor de Guilherme durante o curso e orientador no período de residência médica. Travaram longos debates, nem sempre amistosos, sobre a origem das psicoses. O professor se irritava quase sempre com o que considerava uma rebelde teimosia de seu aluno.

_ Nunca imaginei que o Dr. Martins me recomendasse a alguém...

Humberto amparava o queixo com a destra, olhando o jovem nos olhos.

_ Pois é... Ele não costuma fazer isso mesmo. Tanto mais comigo e para este hospital. Você já deve ter conhecido nosso lindo apelido, "Hospício da Serra", e, como vê, bem sabe que as instalações não demonstram haver um centro de modernidade por aqui.

O velho médico fitou Guilherme por sobre as lentes.

_ Você acredita que há uma alma em cada ser humano?

O que Guilherme já quase adivinhava se tornou evidente. O ex-professor encaminhou-o aos cuidados do antigo colega por causa de uma recorrente divergência. Apesar de Guilherme não ser religioso, tampouco seguir ideário algum de cunho místico, tinha em si uma convicção que desde sempre o encontrava sob foros de verdade. Cria que a vida é um fenômeno imaterial que continua após a morte do corpo físico.

_ Bem... Mais ou menos. Não sou religioso.

Humberto intercedeu, com seu velho jeito de ser, diretamente no ponto que julgava relevante.

_ Você é ateu?

Uma pergunta. Apenas uma pergunta. Capaz de deixar, em situações como aquela, o interlocutor bastante desconfortável. Seria um teste? Estaria ele sendo sabatinado em temas extracurriculares?

_ Não...

Humberto recostou-se na cadeira e arqueou as sobrancelhas.

_ Claro que não. Se fosse, Martins não teria enviado você a mim. Mas eu precisava ouvir de você.  Nós temos alguns casos bem interessantes por aqui. 

Guilherme continuava com o olhar interrogativo, mas o ancião preferiu deixá-lo ir.

_ Não se preocupe com isso agora. Vou pedir ao Dornelles que o acompanhe aos seus aposentos. Descanse. amanhã você já inicia o contato com nossos pacientes.

Enquanto falava Humberto se pôs de pé e, tomando Guilherme pelo braço, o conduziu até a porta. Após um grito, surgiu Dornelles. Baixo e careca, sorridente, já chegou indicando o caminho do quarto.

Para surpresa de Guilherme, seus aposentos eram muito próximos. Virando à direita ao final do corredor, a segunda porta, na qual se lia "Vice-Diretor Geral". Não teve tempo de perguntar e Dornelles já foi abrindo a porta. A mala estava sobre a cama, aberta e quase vazia.

_ Suas roupas foram colocadas naquele armário. Os livros estão na prateleira. Ali é o banheiro. Ah! Tem uma pequena sacada ali.

Rapidamente o serviçal, sempre sorrindo, saiu e deixou Guilherme ali, em pé no meio do quarto, ainda tentando assimilar a última hora de sua vida que, até então, julgava bastante tediosa.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Almas Aprisionadas - Capítulo 1

O crepúsculo costumava ser especialmente belo quando o astro iniciava o mergulho por trás da Serra da Mantiqueira. Céu azul com nuvens muito alvas, as tardes findavam sob matizes rubros e uma melancolia agradável, arrefecendo o calor que até pouco castigava os rurícolas que restavam naquele vale tomado por indústrias. A mata atlântica vicejava ocultando a devastação que a urbanização descontrolada semeou por todo um século. O Rio Paraíba serpenteava ignorando os esbulhos sofridos em seu leito à conta da exploração de suas areias. Águas fortes, tornaram-se especialmente letais para banhistas desavisados, turbulentas sobre imensos buracos abertos sob a correnteza.


O médico estancou diante dos portões observando longamente os muros cobertos de hera. O sol já se punha quase oculto, fazendo em chumbo escuro os tons predominantes. Não fosse o taxista e Guilherme permaneceria absorto em seu transe. Desconcertado, pagou pela corrida sob o olhar investigativo do chofer que, algo decepcionado, afastou-se frustrado por não ter conseguido conversar durante o percurso, como sempre fazia.

Um interfone parecia moribundo sob ramos de hera seca. Logo uma voz rangente perguntava, sob evidente irritação, o que desejavam ali já no final do dia. A apresentação sintética do lacônico facultativo não pareceu instigar interesse. Mas um estalido metálico anunciou a abertura do grande portal. O homem surgiu por trás da fresta aberta e com movimentos do indicador direito chamou o visitante. Guilherme entendeu que não havia como ser atendido muito rapidamente, apreciando o longo caminho dentre árvores até uma grande edificação lá adiante. O caminho era descuidado, com mato crescido e o que restou de seixos sobre o leito esburacado. O homem que conduzia Guilherme tinha certamente mais de um metro e noventa, muito forte, envergando um uniforme de segurança meticulosamente bem passado e engomado. O som dos passos tomava os ouvidos como se nada mais houvesse no mundo. Guilherme desejaria que o grisalho e forte segurança o ajudasse com sua mala, única, porém já bem pesada naquele final de dia. Um jardim seco e com arbustos cadavéricos se punha entre eles e uma escada que levava à porta do Sanatório Nossa Senhora, conhecido na região como Hospício da Serra. Para ambos os lados o prédio se estendia por muitos metros, acumulando três andares com muitas janelas, todas com grades. Muita umidade contrastava com o calor das tardes, desnudando manchas horríveis de bolor nas bordas e nas reentrâncias dos imensos blocos da construção.

O imenso segurança voltou-se e tomou a mala das mãos de Guilherme, sem fitá-lo nem por um instante. Deram a volta no ressequido jardim e subiram os degraus de madeira rangente. Guilherme entendeu que o auxílio ali era mesmo indispensável pois cada degrau mais parecia a arquibancada de um estádio de futebol. A voz firme do segurança, sem nenhuma preparação, noticiou que o Sanatório foi feito em grande parte com materiais doados, sendo que um trecho de uma bancada tinha sido aproveitada para aquela escada improvisada. Já diante da porta, para surpresa do jovem médico, o segurança devolveu-lhe a mala com a mesma desfaçatez com que a tomara.

Moveu nervosamente uma pequena alavanca enquanto o som surdo de uma sineta tagarelava no interior. 

_ Seja bem-vindo Dr. Guilherme!

Mal pronunciada a rápida e inesperada frase, o alto homem se afastou aos pulos, descendo em dois lances os sete imensos degraus. Ainda olhava o homem fardado indo adiante quando a porta abriu-se. Não demorou a reconhecer o Dr. Humberto sob a sanguínea aparência que, do alto das muitas décadas de vida, empertigava um guarda-pó branco com largo sorriso.

_ Guilherme! Temi que não conseguisse chegar hoje. Venha! Entre, entre.

Pela primeira vez após várias horas, o jovem sorriu. Ingressou naquele prédio de aspecto feio e lúgubre e, para sua grande surpresa, descobriu um aconchegante átrio iluminado por um enorme candelabro. Piso de madeira e paredes revestidas com lambris, parecia um castelo simples mas confortável, com móveis rústicos também de madeira, muita madeira, por todos os lados. Deu-se conta de que não prestava atenção a uma longa dissertação que o antigo psiquiatra fazia sobre o local, como se fosse um guia turístico. Fitava um balcão atrás do qual uma enfermeira muito idosa ignorava solenemente a presença de ambos, preocupada em ordenar fichas e uma grande papelada em longas gavetas que pendiam abertas.

De repente viu-se observado pelo velho alienista, por sobre as lentes dos óculos.

_ Enfim... Vamos até o meu gabinete. Depois vou mostrar os seus aposentos.